Grupo Lago cresceu 750% em 5 anos. A Lais foi fator fundamental, diz o CEO. Ver case >

Implantação de IA na imobiliária: a ferramenta é a parte fácil

Em 95% dos pilotos de IA generativa, o retorno não apareceu, e o problema raramente foi a ferramenta. Entenda como treinar, testar e ajustar a IA para o time adotar.

Edgar Marinho

Edgar Marinho

14 out 2026 · 7 minutos

Em 2025, um relatório do MIT pôs na mesa um número incômodo para quem investe em tecnologia. No estudo The GenAI Divide, do projeto NANDA, Aditya Challapally, Chris Pease, Ramesh Raskar e Pradyumna Chari mostraram que só 5% dos “pilotos” de IA generativa nas empresas geraram ganho rápido de receita, como noticiou a revista Fortune. Os outros 95% travaram com pouco ou nenhum impacto mensurável no resultado. Os autores tiraram a culpa dos modelos e evidenciaram uma lacuna de aprendizado: ferramentas que não se adaptam ao jeito de trabalhar da empresa, e empresas que não sabem encaixá-las na rotina.

No mercado imobiliário, essa situação tem um roteiro já conhecido. A imobiliária contrata, liga a IA numa segunda-feira, o corretor reclama de um lead mal passado na quarta e, um mês depois, quase ninguém abre a plataforma. Quando a implantação de IA tropeça, quase sempre é na adoção. Jorge Santos, CEO da Cohab Premium, em Aracaju, e presidente da ABMI, foi direto no último episódio da temporada do Fala Lais:

“Se apenas contratar e colocar para funcionar, não vai dar certo. E a culpa não é da empresa, a culpa não é da tecnologia.”

Jorge Santos, CEO da Cohab Premium (Aracaju - SE)

Cada artigo que acompanhou a temporada mostrou a IA numa frente: a rede, o crédito, a captação, a operação segmentada. Este volta um passo, para o momento em que essas imobiliárias escolheram e colocaram a IA para rodar e convenceram o próprio time.

A IA chega como funcionária nova

Jorge compara a IA a um funcionário novo, que não senta na cadeira e atende no primeiro dia: faz integração, conhece a empresa, é treinado. "E aí com a IA não é diferente", diz. Na Cohab Premium, onde a Lais se chama Cleo, a coordenadora de vendas Duda Cunha conta que foram três meses treinando a IA para garantir máxima personalização antes de ela falar com o primeiro cliente.

Treinar, aqui, é ensinar o que só o negócio sabe, como apontar o estoque, as garantias aceitas, os bairros atendidos e, sobretudo, o que a imobiliária não faz. Na Ibagy, em Florianópolis, a Gy (nome da Lais deles), precisou aprender que, mesmo estando numa cidade turística, a casa não trabalha com aluguel por temporada. Antes de liberar, os donos quiseram "conferir que ela estava de acordo com os nossos princípios", nas palavras de Manuella Ibagy, terceira geração à frente da empresa.

O detalhe pesa. Segundo o DataLais, estudo da Lais com quase 700 mil conversas de mais de 1.000 imobiliárias, pets aparecem em 7% das conversas de aluguel. Uma IA que não sabe quais imóveis aceitam animais tropeça em quase uma de cada 14 conversas de locação.

Antes do cliente, o time interno

Na Cohab Premium, o passo seguinte ao treino foi pôr os colaboradores no papel de cliente. "A gente também testou com os nossos colaboradores para saber os gargalos. Quando a gente consertou esses gargalos, a gente soltou para os clientes", conta Duda.

O teste rende mais quando alguém tenta, de propósito, fazer a IA errar:

Imóvel que saiu do ar → ela precisa avisar e oferecer outra opção.

Condição que a casa não oferece → ela precisa dizer não com clareza.

Mensagem apressada → com erro de digitação e três perguntas numa linha, ela precisa responder a todas.

Lead que some e volta → dois dias depois, ela precisa retomar de onde parou.

Cada tropeço achado nessa fase é um a menos que acontece com o lead de verdade. Na Luagge, em Porto Alegre, onde a IA se chama Bella, o diretor Gabriel Lemos lembra que até a decisão de adotar passou por um teste: "Vamos primeiro testar pra gente tirar as conclusões." E o time que testou sabe da capacidade de atendimento da Bella.

O que fazer com o medo do corretor?

Na Ibagy, a decisão de implantar a Lais não foi unânime entre os diretores no primeiro momento, mas após muita análise em conjunto, a Gy entrou. O peso da liderança aparece na pesquisa AI at Work 2025, do Boston Consulting Group, assinada por Vinciane Beauchene, Sylvain Duranton, Nipun Kalra e David Martin, que ouviu mais de 10.600 profissionais em 11 países. Quando o apoio da liderança é forte, a parcela de funcionários que se sente positiva em relação à IA generativa sobe de 15% para 55%. Só cerca de um quarto da linha de frente diz receber esse apoio.

O que resulta nessa confiança já foi especificado. Na revista Management Science, Berkeley Dietvorst, Joseph Simmons e Cade Massey publicaram em 2018 experimentos sobre a aversão a algoritmos. Em tarefas de previsão, quando os participantes não podiam mexer nas estimativas de um algoritmo imperfeito, só 32% escolheram usá-lo. Quando podiam ajustá-las, mesmo dentro de limites, a adesão passou de 70%. E a adesão quase não variava com o tamanho do ajuste permitido: as pessoas queriam algum controle, por menor que fosse.

Para o corretor, esse controle é concreto, já que ele precisa ler a conversa antes de ligar para o lead e, quando quiser, pausar a IA e assumir o atendimento pelo mesmo número. É o que troca a pergunta "ela vai me substituir?" por "o que ela me entrega no dia a dia?", como mostra o artigo de IA para corretores.

A Cohab Premium trilhou outro caminho. Com receio de rejeição, a diretoria deixou a Cleo rodando por 30 dias antes de apresentá-la aos corretores: a gestão e quem operava a IA sabiam, o time comercial ainda não. Na reunião de apresentação ainda havia cara feia, até que um corretor levantou a mão e lembrou que a Cleo já tinha mandado cliente para ele. A imobiliária entendeu a própria equipe e escolheu a hora de apresentar a Cleo: contra um receio concreto, o melhor argumento era o cliente que já tinha chegado.

Nome, crachá e personalidade

Cleo, Gy, Bella. Em quase toda casa em que Diego Bonastre passou nesta temporada, a IA ganhou nome próprio, e a escolha nunca foi detalhe. Na Cohab Premium, Jorge queria um nome curto, fácil de lembrar e que começasse com C, de Cohab; surgiram cerca de 20 sugestões até sobrar a Cleo. Fora da temporada, na JK Imóveis, em Sete Lagoas, ela virou Lara, de lar.

Um nome muda o lugar que a IA ocupa na cabeça do time. Ela deixa de ser ferramenta e vira colega de equipe, alguém que recebe retorno e é cobrada. Os clientes seguem a deixa: a Ibagy já recebeu caixa de bombom endereçada à Gy, e a Bella recebe agradecimentos no Google.

Personalidade vai além do nome. Na Ivan, em Uberlândia, com cerca de 8 mil leads por mês só na locação, a equipe do gerente de locação Reinaldo Messias separou o atendimento já na entrada. Montou uma personalidade para o premium, outra para o residencial comum e outra para vendas, com o administrativo numa quarta operação, cada uma com comportamento e follow-up próprios. Quem procura cobertura e quem procura um quarto e sala não esperam a mesma conversa.

Implantação de IA não termina no dia em que ela entra no ar

O relatório do MIT resume a falha das ferramentas numa frase: elas não aprendem, não se adaptam, não se integram. Na imobiliária, quem fecha essa lacuna é o time, com número na mão.

Na Cohab Premium, a taxa de leads qualificados subiu de 48% para quase 53% ao longo do último ano. Na Ibagy, Leandro Ibagy conta que os ajustes foram mais intensos no começo e seguem até hoje. Na Ivan, a melhoria veio de fora: numa conversa de café durante um evento, um gestor de outra imobiliária sugeriu ao CEO Vinicius Costa que revisasse a própria IA com a ajuda dela mesma, e a Ivan aplicou a dica.

Para o ajuste fino não virar apenas um palpite, poucos indicadores bastam: taxa de qualificação por canal, volume que chega fora do horário, leads recuperados pelo reengajamento e os pontos da conversa em que o time precisa assumir. Mexa em uma coisa de cada vez e compare períodos iguais. Para Jorge, o treino não acaba:

“A própria IA não pode parar de aprender, não pode parar de ser treinada, e a pessoa também.”

Jorge Santos, CEO da Cohab Premium (Aracaju - SE)

Ninguém implanta IA sozinho

A temporada inteira testou uma tese que Jorge já tinha levado ao discurso de posse na ABMI: ninguém cresce sozinho. Na associação, explica, divide-se para multiplicar: "A gente divide a nossa, mas quando todo mundo divide a deles comigo, eu também cresço." Com a IA é igual. A dica que mudou a IA da Ivan nasceu num corredor, e o caminho da Cohab, contado em público, vira atalho para quem começa agora.

O MIT aponta na mesma direção: projetos com fornecedores especializados, feitos em parceria, deram certo em cerca de 67% dos casos, o dobro dos construídos só dentro de casa. É aí que a Lais entra. O time de especialistas configura a IA com o estoque e as regras de cada imobiliária, numa implantação que costuma levar 4 semanas, e a imobiliária escolhe nome, foto, linguagem e o comportamento de cada operação. Na Gestão de atendimentos, o time acompanha as conversas em tempo real e assume pelo mesmo número quando quiser, o que segue o mesmo raciocínio do pouco de controle que Dietvorst e seus colegas apontaram como decisivo. Em Dados e Relatórios estratégicos, o dashboard em tempo real e o relatório estratégico mensal dão o número para o ajuste fino. E a gestão de contas, com a experiência de mais de 1.500 imobiliárias clientes, senta com a operação para revisar o que funciona: a troca de boas práticas da rede, agora dentro da sua implantação.

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